Será que o conteúdo que escolhemos ver online influencia nossa saúde mental?

Será que o conteúdo que escolhemos ver online influencia nossa saúde mental?

Como podemos pensar em prevenção de saúde mental na contemporaneidade digital?

Como podemos pensar em prevenção de saúde mental na contemporaneidade digital?

Atualmente, o celular é considerado uma extensão do nosso próprio corpo. Sair de casa sem ele pode provocar um estranhamento genuíno… não apenas pelo hábito, mas pelas demandas reais que a vida contemporânea deposita nesse pequeno dispositivo: o e-mail que não pode esperar, a reunião marcada de última hora, o amigo esperando no lugar certo à hora certa.

A tecnologia digital trouxe avanços inegáveis para a ciência, para o trabalho, para a forma como nos relacionamos. Mas há um lado B nessa história. E ele começa a aparecer quando percebemos que estar conectado deixou de ser uma escolha para se tornar uma condição, quase uma obrigação silenciosa de estar sempre a par de tudo: das notícias, da geopolítica, da vida dos amigos próximos e dos colegas nem tão próximos assim.

Vale perguntar se toda essa disponibilidade de informação de fato nos faz bem. Ou se, em algum momento, ela começa a pesar mais do que oferece.

No contexto clínico, ansiedade, depressão e comparação social figuram entre os quadros mais frequentemente associados ao uso intensivo de telas, e a pesquisa científica começa a mapear com mais precisão por quê. Alguns pensadores chegam a comparar esse momento ao mito de Prometeu: a técnica que o ser humano dominou acabou, de certa forma, dominando-o de volta.

Os pesquisadores Christopher A. Kelly e Tali Sharot realizaram uma pesquisa que sugere uma relação bidirecional entre o tipo de conteúdo que consumimos e a saúde mental. Através de uma metodologia robusta, somando quatro análises com 1.145 participantes, os autores não se limitaram a observar o efeito na saúde dos hábitos digitais dos participantes, e sua relação causal ou correlacional.

O ponto de partida foi simples: com a autorização dos participantes, os pesquisadores registraram o histórico real de navegação de cada um durante dias ou semanas. Em seguida, um programa de computador percorreu o texto de cada página visitada e atribuiu a ela uma pontuação emocional,  algo como um termômetro que mede não a temperatura do ar, mas o "teor” do que se lê. Esse termômetro foi calibrado por três métodos distintos, entre dicionários de palavras com valor emocional conhecido e modelos de inteligência artificial treinados para reconhecer o peso afetivo de um texto.

Ao mesmo tempo, a saúde mental de cada participante foi avaliada por questionários clínicos padronizados, os mesmos utilizados em consultórios de psicologia e psiquiatria de maior credibilidade para identificar graus de ansiedade, depressão e retraimento social.

Cruzados os dados, surgiu um padrão: quem navegava por conteúdos de teor mais negativo tendia a apresentar indicadores piores de saúde mental. Mas a ciência sabe que padrões não são provas. Alguém poderia objetar, com razão, que talvez quem já se sente mal seja simplesmente atraído por conteúdos desagradáveis, não o contrário. Para responder a essa objeção, os pesquisadores construíram um experimento. Pediram a um grupo que buscasse intencionalmente conteúdos negativos; a outro, conteúdos positivos. O humor de quem mergulhou no negativo piorou; o de quem buscou o positivo melhorou. E o mais revelador: após a tarefa, quando podiam navegar livremente, os expostos ao conteúdo negativo continuaram escolhendo mais do mesmo, como quem, após provar algo amargo, passa a reconhecer apenas o amargor no que come.

Havia, portanto, não uma relação, mas um ciclo: o estado mental “influencia o que se clica”, e “o que se clica” influencia o estado mental. Os pesquisadores quiseram então saber se era possível interromper esse ciclo vicioso. Adicionaram etiquetas simples nos resultados de busca, indicando se determinado link tendia a fazer o leitor sentir-se melhor ou pior. O resultado foi que os participantes passaram a escolher conteúdos de teor mais positivo e relataram melhora no bem-estar.

A grande constatação não é que o “conteúdo negativo” faz mal, isso muitos suspeitavam. É que o ciclo pode ser quebrado com instrumentos surpreendentemente modestos, desde que tornem visível aquilo que, até então, agia em silêncio.

O estudo abre espaço para pensar em formas mais cuidadosas de lidar com a vida digital, especialmente em momentos de maior vulnerabilidade emocional, reduzindo a exposição a certos tipos de conteúdos que, dependendo do momento de vida, podem nos fazer mal.

KELLY, Christopher A.; SHAROT, Tali. Web-browsing patterns reflect and shape mood and mental health. Nature Human Behaviour, 21 nov. 2024. DOI: 10.1038/s41562-024-02065-6.

Confira o estudo na íntegra
https://www.nature.com/articles/s41562-024-02065-6

Arthur Cano

Clínica de saúde mental que oferece cuidado psicológico com acolhimento, ética e responsabilidade.

Em caso de emergência ou crise, ligue para o CVV (Centro de Valorização da Vida) no número 188 ou procure o serviço de saúde mais próximo.

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